enquanto o sol arma sua guerra
contra o inverno que não arreda
um pé do nosso céu
aqui na terra todo mundo
assiste embasbacado
o cinza cobrir o azul
e nem lá nem cá
verão querendo chegar
inverno que não quer ir
enquanto medem forças
um ou outro dia salva
o sol amarelo pra esquentar
as almas de quem espera
que não demore o dia
do verão chegar
vai embora inverno
você não quero mais
chega logo verão
com o calor que você traz
um pouquinho de cultura, um pouquinho de política, um pouquinho de surf. (quase) tudo capixaba!
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Sobre Retas, Curvas e Outras Preocupações Capixabas
Muita polêmica foi criada em torno da curva na Reta da Penha:
Para atender à demanda viária a ser criada pela nova sede da Petrobras, estupidamente enfiada em uma das vias mais problemáticas da capital. Todo mundo já andou na reta da penha nos horários nobres do engarrafamento: de seis e meia às oito, de onze e meia à uma hora da tarde, de cinco às sete... Enfim. só não deve atravessar em horário de pico a reta da penha o desinfeliz que deixou ela se instalar bem ali. (E agente sabe muito bem de quem se trata.)
Não que o capixaba não esteja acostumado a se submeter à lógica das grandes empresas. Ah, agente sabe sim, e muito bem. A degradação sócioambiental continua covardemente, seja no norte seja no sul capixaba. O que estão fazendo com o nosso litoral é de dar vergonha.
Mas, nesse ínterim nos damos ao luxo de reclamar que com a curva perdemos o grande patrimônio cultural capixaba - herença do novo arrabalde a linha reta que corta a ilha - a vista pro convento da penha. Ah, tão católico... Nada como sofrer debaixo do sol quente olhando pra um convento no alto de um morro.
Grande preocupação vã. Tem coisa muito mais importante acontecendo, coisa muito mais grave rolando por debaixo (às vezes nem tão por baixo assim) dos panos e ninguém fica indignado como fica quando vê, estampada em qualquer matéria nos jornalecos capixabas, uma curva no meio da reta da penha. "Ó, que sacrilégio, a reta da Penha!"
Diz o Ministério Público que vai intervir... Na moral mesmo? Tem coisa muito mais importante pro ministério público fazer nesse estado!
Vamos citar um exemplo, um exemplinho simples só, pra ninguém desanimar de ser capixaba. Pq se for pra falar tudo, a saída agente já conhece. Corram para as montanhas, que aqui embaixo já deu tudo errado. Se liga no drama:
O Ex-Governador PH compra um apê que é declarado em R$48.000,00. Até aí tudo bem, é mais ou menos o preço que o capixaba comum pagaria num imóvel de segunda mão, ou quem sabe no planinho mais barato do programa "minha casa, minha dívida". Só chama atenção o fato do imóvel ser localizado no Barro Vermelho, área nobre da capital. Deve ser algum programa novo tipo "minha casa, minha mãe querida". Imóvel da Galwan.
Aí olha só que engraçado: (muito engraçado mesmo! surpreendente!)
No mesmíssimo dia, a empresária Maria Alice Paoliello Lindenberg e a empresa Lazer Administração e Participações (empresa de Victor Affonso Biasutti Pignaton) compram o apartamento, dividindo o custo meio a meio. Daria R$24.000,00 pra cada um, correto? Errado! Cada um dos dois deposito na conta do ex-governador Paulo Hartung a bagatela de R$ 1050000,00. Assutou com a quantidade de zeros? Por escrito é UM MILHÃO E CINQUENTA MIL VERDINHAS, LEKE!
hehehehe
eu morro e não vejo de tudo! rs
Aí voltemos: curva na reta da penha, certo? Que feio! Feio??
Feio é o judiciário capixaba, que ontem ainda teve seu presidente cassado - não por seus pares capixabas, mas por uma investigação federal - por venda de sentenças, fraudes em concursos (outra especialidade capixaba) e nepotismo. Enfim né, o TJ-ES era administrado como a quitanda do zé, aqui na esquina. Um negócio de família. (óóóó! façam cara de chocados, ninguém sabia) Vocês ainda lembram da operação Naufrágio, não lembram capixabas?
vamos agora fazer uma citação, ipsis litteris (é eu também falo difícil quando eu quero) da matéria original, publicada no www.seculodiario.com.br (citando a fonte tá liga copiar. sempre citando a fonte hein galera)
"Galwan: balcão de negócios com autoridades
Tal condição privilegiada também foi oferecida pela Galwan a desembargadores – sempre da cúpula do Tribunal de Justiça – e a membros do Ministério Público Estadual (MPES). Entre os anos de 2003 e 2006, a construtora negociou imóveis de alto padrão, como nos casos dos ex-presidentes do TJ Adalto Dias Tristão e Jorge Góes Coutinho. Além do atual procurador-geral de Justiça, Fernando Zardini. Nos negócios, a diferença entre o preço de mercado e os valores declarados na escritura chega a quase dez vezes.
Além disso, os filhos do desembargador Adalto Tristão também apareceram como sócios da construtora na aquisição de terrenos na praia de Itaparica, em Vila Velha, em um total de 6.790,05 m² de área.
Antes da relação com o Judiciário e o governo Paulo Hartung, a construtora Galwan sequer era situada entre as principais empresas do segmento no Espírito Santo. Fundada no ano de 1981, a Galwan inaugurou, ao todo, 15 empreendimento até o ano de 2002 – de acordo com dados sobre obras no site da própria empresa. Em geral, apartamentos de padrão médio, bem distante dos atuais imóveis de luxo.
A chegada de Hartung ao palácio Anchieta coincide com o período de expansão da Galwan. Desde então, a empresa de propriedade de José Luiz Galvêas Loureiro inaugurou 25 obras no espaço de nove anos. O que a levou a expandir seus negócios para além da Praia da Costa – onde havia inaugurado onze dos 15 empreendimentos antes da Era Hartung."
E porque eu tô falando de judiciário capixaba, mais uma vez, denovo? Simples. Porque o cara que comprou o imóvel do casal citado lá em cima (voltaremos a eles daqui há pouco) era um - veja só que coincidência - juíz capixaba! (esses aí tão bons é pra apitar jogo do botafogo, eternamente garfado pela arbitragem.) Na matéria tem lá o nome dele.
Aí olha só que legal: ph compra um apê baratinho, vende por 40x do preço pra uns conhecidos que revendem pra outro "amigo". caso típico né? queria ser amigo do dono da Galwan também, pra ver se ele não me vende umas coisas baratas assim... agora vamos fazer um raio x dese círculo de amizade:
PH - ex governador. famoso como gerente da "nova classe política capixaba" que "saneou o estado" tanto "ética quanto financeiramente" cof cof
*convém lembrar que até hoje o atual governo não informou quando PH deixou no caixa do governo do estado.
Maria Alice Paoliello Lindenberg - Diretora de Relações Institucionais da Rede Gazeta (#gazetamentirosa?) empresa sócia do ES em Ação
Victor Affonso Biasutti Pignaton - Dono do Leonardo da Vinci. colégio tradicional "dazelite" capixaba.
Adriano Correa - Juiz que efetuou a compra final do famigerado imóvel. famoso por cassar desafetos manifestos do governador tanto quanto por auxiliar os mais próximos. também sensível à condição política econômica capixaba afinal, se não importarmos "taxes free" livres de impostos, por onde vão entrar os produtos gringos pra competir com a indústria nacional? e viva o fundap! E se não reservamos aos grandes empreendimentos terrenos pra sua instalação, vai viver de que o capixaba? (aonde, perceba, tanto faz)
Agora vamos fazer uma análise bem rasa, que esse texto já tá bem longo: Ora, taí explícito o "arranjo institucional" que tá fundando o "novo espírito santo" (esses dias A Tribuna falava da "Geração Petróleo". acho que é a nossa tá?).
Uma "nova" elite política, muito bem representada pela figura do ex-governador. Um arranjo empresarial - uma empresa de construção civil, o colégio da elite capixaba e a empresa de mídia que faz mais sucesso no ES. Um juiz amigo.
É disso que você precisa pra se dar bem aqui na terrinha. Se não tem essas cartas nego, vá curtir um engarrafamento na reta da penha. com curva ou sem curva. faz diferença? pra mim faz não.
Não tem esse esquemão milionário descrito aí em cima? pergunta se saiu uma linha nA Gazeta, nA Tribuna, na Rede Vitória ou na Tv Capixaba. Não saiu. Mas a Gazeta deu sua resposta rápida à curva na reta da penha: um elogio ao des-envolvimento capixaba, falando da súbita valorização dos imóveis na avenida, perto da sede da empresa, no Barro Vermelho. Quem sabe muito bem disso é a Diretora de Relações Internacionais da Empresa Maria Alice Paoliello Lindenberg. Coitada, pagou caro num imóvel que valorizou mais de quarenta vezes numa tarde...
Mas pera lá, qual a confiabilidade dessas empresas de comunicação? Que são sócias de tantas outras no consórcio ES em AÇÃO que veja só - já planejou como vai ser o seu futuro, capixaba, até 2025. Você deu sua opinião? Eu não lembro de ter sido consultado.
Mas mesmo assim eles tem um plano. que vem sendo executado e, se correr tudo como planejado garante os pedaços maiores do bolo pra quem sempre comeu a maior fatia aqui no Estado do espírito santo. Por isso que eles se juntam. Para defender seus interesses.
- Não, não os seus, você capixaba que tá lendo. Os interesses deles mesmos!
Aí qualquer aspecto negativo dos projetos da elite dirigente do "novo espírito santo" não vira notícia. Qualquer indício de corrupção "dos brothers" que dirigem esse projeto - nas suas costas, capixaba - não vira notícia. Todos os esquemas que todos capixabas sabem que existem, não vira notícia. E a notícia importante é a inofensiva "curva na reta da penha".
Na moral? Foda-se curva na reta da penha!
Tô me sentindo numa cidadezinha dessas de uma igreja, uma praça, uma rua... Lendo um jornalzinho desses de duas páginas! rs
![]() |
| o capixaba é o da direita |
Transforma necessidade em vontade, incorporando a mesma moral que A Gazeta e A Tribuna dizem que é a correta, a despeito do que agente aprende - seja na escola seja em casa com os mais velhos, seja na nossa vivência.
E vamos seguindo, de marionete na mão dos outros: ralando horrores pra garantir uma vaguinha - seja na petrobrás, seja na vale-arcelor-samarco - pra seguir poluindo o ar que respiramos e que vamos condenar nossos filhos e netos a respirar.
Na vã esperança de naqueles horários - sete da manhã, meio dia, cinco e meia da tarde - poder encarar o engarrafamento na reta da penha - com curva ou sem curva - sozinhos, confortáveis, no ar condicionado dentro de uma bolha chamada automóvel (financiado a perder de vista).
Afinal, só se dá bem quem joga de acordo com as regras do jogo, né?
Pra terminar, um som bom e afiado:
"Essa espuma sobre a praia
É um dente de ocidente
É um dente, um osso, um dente
Vomitado pelo mar
Vem em ondas poluídas
Vem em nome da moral
Vem na crista dessa onda
A cultura Ocidental
E a espuma branca se lança
Na força da preamar
Em ondas-curtas, notícias
Na hora do meu jantar
Na hora do meu jantar
Vem nos mistérios da noite
Na clarescência do dia
Nos anúncios luminosos
No vestido de Mari"
diz aí? tá satisfeito? porque andam dizendo por aí que você tá sim...
domingo, 9 de outubro de 2011
caian
E viu brilhar dourado, no meio do entulho entre as fundações da casa.
Só o que sobrara era a pedra coberta de musgo, o mato crescendo onde outrora haviam cômodos, aquela terra preta característica. No chão o contorno bem definido das paredes externas, as divisões dos cômodos. Como canteiros de um jardim, onde só se via as folhagens de um mato rasteiro não identificado, por entre restos de construção abandonados ao tempo. Havia chovido muito na véspera. Quase desistira do passeio. Insistiu. Acertou a boa, fez sol. Fez a trilha. Viu a ruína, lavada pela tempestade - a pior das últimas décadas, é o que diziam na vila. E viu brilhar dourado entre os restos da casa - habitação típica da região, colonização alemã, final do século XIX. É o que dizia o panfleto que arrumara, com o mapa das trilhas...
De começo nem cogitou a idéia. Mas quando seus tios insistiram para que usasse o cupom que haviam ganho valendo um feriado no interior, caian se viu aceitando e procurando informações sobre o lugar. cachoeiras, trilha, tinha tudo. Confirmou. Só não contava com a chuva que resolvera cair dois dias antes da viagem. Rios cheios, pontes derrubadas, barreiras caídas. Seus tios ligaram preocupados "vai não caian.", "dá nada não tia!". E foi. Seguro até.
Chovera forte terça, quarta e quinta. Sexta feira o céu amanheceu cinza. Vento parado, nuvens se espalhando. Por volta das quatro da tarde, o nordeste traz uma leve brisa pra tocar o rosto de caian, quando ele atende o telefone. A tia, o pedido, a negativa. O sol encontra uma passagem - primeiro por entre as nuvens, depois por entre os prédios do centro de vitória - e pinta de amarelo o rosto moreno de caian. "fica tranquila tia, o tempo vai firmar, vai dar tudo certo" "vai com deus, meu sobrinho".
Pagando a última conta, quase último cliente a sair do banco na sexta feira. Trânsito engarrafado, fumaça, buzinas... Um milhão de gentes na rua, andando apressado, engarrafando a calçada. "Tranquilo, hoje à noite eu durmo na roça, com barulho de bicho".
"Nem achei que viesse mais! Pode entrar e fica à vontade meu filho, tem um quarto ali em cima pra você" Disse a senhora simpática ao recebê-lo na pousada. Deveras aconchegante. Teto baixo, piso de madeira, e o cheiro tão familiar de um fogão a lenha aceso. "Se quiser ir tomando um banho, a janta já tá quase pronta!"
Banho tomado e agasalhado - fazia frio mas caian vira estrelas no céu, da janela do quarto - desceu pra jantar. Caldo verde... E dois dedinhos de prosa intrigantes com o casal de idade que administrava a pousada "mais uma sobrinha que não gosta mto do trabalho mas já viu né, filho cresce quer ganhar o mundo, deixa nós na mão dos outro". Falaram da região, que já teve seus dias de glória. Café, gado, cacau. "até o trem passava aqui!". Agora só a floresta jovem vicejando, pós falências. De uma hora pra outra, nem uma hortinha mais se fazia. Velha história, depois do café, depois do pasto, o que não virou voçoroca vale mais virando floresta denovo. "é, meu filho, turista dá menos trabalho que qualquer criação."
E subiu pra dormir com a barriga cheia, o pensamento lento, e vários panfletos na mão com roteiros que incluíam cachoeiras, fazendas de ecoturismo, alambiques... Caian dorme decidido a fazer o que lhe aconselhara o velho casal: "sobe aí por cima ó, que vc encontra a estrada antiga. ninguém usa mais não mas ainda dá pra seguir. e vai andando, que passa pelo rio, umas casas antigas, a mata já tá mais crescida em volta, ela vai por um vale por cima desse que vai a estrada nova..."
Levanta cedo, sente frio, mas a luz lá fora confirma o que já sabia. Sol. Entre nuvens, mas sol. O orvalho ainda brilhando nas folhas e flores, os passarinhos em algazarra saudando o dia e o inconfundível cheiro do fogão a lenha. Já aceso. "hmm, cheiro de café"
Café, broa de milho, mentira, cuscuz, bolo de aipim, mamão, banana, jambo, suco de laranja, queijo, requeijão, tudo já em cima da mesa. E uma linda caboquinha preparando a mesa "sou fulana sobrinha dos fulano" "bom dia fulana" "bom dia moço".
Come pouco, até meio triste por ter de escolher em tanta fartura. Guarda umas bananas na mochila, enche o cantil e vai fazer a trilha. A subida é um tanto íngreme, um morro meio barranco por cima do terreiro da pousada. Mas a estrada velha está ali, perceptível. Cresce bastante mato mas o caminho é nítido. Caian começa a caminhar.
E no caminho, em silêncio vai ouvindo: sabiás cantando, sanhaços e vários outros passarinhos cujo nome não sabe, e cujo canto não associa a imagem alguma. Ouve micos assobiarem. Gaviões cruzarem o céu, ora branco, ora azul. Nas bordas da estrada antiga árvores já grandes percorrem sua jornada em direção ao céu. Umas já estão bem adiantadas. Ás vezes barulho de água. Caian para, quer saber de onde vem. "cachoeira será? tá frio ainda, andar mais um pouco"
E numa das curvas da estrada, se é que ainda podíamos chamar aquela trilha cada vez mais fechada de estrada, a floresta se apresenta. Volumosa, sobre a estrada, subindo morro acima, como se projetasse uma sombra verde por cima do caminho e dos olhos de caian. Árvores enormes, palmeiras, muito verde. E discretamente, mas sem passar pelos olhos argutos do observador, duas filas de árvores, paralelas, destoam do resto da paisagem. Em meio à mata atlântica, vários pinheiros enfileirados, apontando feito lanças para o céu. Seguindo a curva do morro, sem descer como a estrada velha faz. "caminho pra algum lugar" foi o que pensou caian.
E foi pelos pés dos pinheiros, até encontrar uma clareira no mato quase alto. As fundações da casa. O sol saindo entre nuvens pra pintar de amarelo o chão da clareira. Enquanto assistia meio embasbacado a dança dos raios solares varando o verde orvalhado da mata crescida, os olhos de caian se fixam num ponto na ruína. Brilhou dourado. "eu hein"
Foi na direção do brilho. Acocorou-se sobre a fundação da casa, esticou o braço e apanhou o objeto. Não acreditou. Pesado, maltratado pelo tempo, mas meio lavado pela chuva que caíra nos dias anteriores, um moedão de ouro! Pesado, com uma cruz e quatro "M"´s em cada canto, impressos em um dos lados. "puta que pariu, um dobrão de ouro!" "mas peraí... dobrões de ouro são anteriores à vinda dos imigrantes..."
Só o que sobrara era a pedra coberta de musgo, o mato crescendo onde outrora haviam cômodos, aquela terra preta característica. No chão o contorno bem definido das paredes externas, as divisões dos cômodos. Como canteiros de um jardim, onde só se via as folhagens de um mato rasteiro não identificado, por entre restos de construção abandonados ao tempo. Havia chovido muito na véspera. Quase desistira do passeio. Insistiu. Acertou a boa, fez sol. Fez a trilha. Viu a ruína, lavada pela tempestade - a pior das últimas décadas, é o que diziam na vila. E viu brilhar dourado entre os restos da casa - habitação típica da região, colonização alemã, final do século XIX. É o que dizia o panfleto que arrumara, com o mapa das trilhas...
De começo nem cogitou a idéia. Mas quando seus tios insistiram para que usasse o cupom que haviam ganho valendo um feriado no interior, caian se viu aceitando e procurando informações sobre o lugar. cachoeiras, trilha, tinha tudo. Confirmou. Só não contava com a chuva que resolvera cair dois dias antes da viagem. Rios cheios, pontes derrubadas, barreiras caídas. Seus tios ligaram preocupados "vai não caian.", "dá nada não tia!". E foi. Seguro até.
Chovera forte terça, quarta e quinta. Sexta feira o céu amanheceu cinza. Vento parado, nuvens se espalhando. Por volta das quatro da tarde, o nordeste traz uma leve brisa pra tocar o rosto de caian, quando ele atende o telefone. A tia, o pedido, a negativa. O sol encontra uma passagem - primeiro por entre as nuvens, depois por entre os prédios do centro de vitória - e pinta de amarelo o rosto moreno de caian. "fica tranquila tia, o tempo vai firmar, vai dar tudo certo" "vai com deus, meu sobrinho".
Pagando a última conta, quase último cliente a sair do banco na sexta feira. Trânsito engarrafado, fumaça, buzinas... Um milhão de gentes na rua, andando apressado, engarrafando a calçada. "Tranquilo, hoje à noite eu durmo na roça, com barulho de bicho".
"Nem achei que viesse mais! Pode entrar e fica à vontade meu filho, tem um quarto ali em cima pra você" Disse a senhora simpática ao recebê-lo na pousada. Deveras aconchegante. Teto baixo, piso de madeira, e o cheiro tão familiar de um fogão a lenha aceso. "Se quiser ir tomando um banho, a janta já tá quase pronta!"
Banho tomado e agasalhado - fazia frio mas caian vira estrelas no céu, da janela do quarto - desceu pra jantar. Caldo verde... E dois dedinhos de prosa intrigantes com o casal de idade que administrava a pousada "mais uma sobrinha que não gosta mto do trabalho mas já viu né, filho cresce quer ganhar o mundo, deixa nós na mão dos outro". Falaram da região, que já teve seus dias de glória. Café, gado, cacau. "até o trem passava aqui!". Agora só a floresta jovem vicejando, pós falências. De uma hora pra outra, nem uma hortinha mais se fazia. Velha história, depois do café, depois do pasto, o que não virou voçoroca vale mais virando floresta denovo. "é, meu filho, turista dá menos trabalho que qualquer criação."
E subiu pra dormir com a barriga cheia, o pensamento lento, e vários panfletos na mão com roteiros que incluíam cachoeiras, fazendas de ecoturismo, alambiques... Caian dorme decidido a fazer o que lhe aconselhara o velho casal: "sobe aí por cima ó, que vc encontra a estrada antiga. ninguém usa mais não mas ainda dá pra seguir. e vai andando, que passa pelo rio, umas casas antigas, a mata já tá mais crescida em volta, ela vai por um vale por cima desse que vai a estrada nova..."
Levanta cedo, sente frio, mas a luz lá fora confirma o que já sabia. Sol. Entre nuvens, mas sol. O orvalho ainda brilhando nas folhas e flores, os passarinhos em algazarra saudando o dia e o inconfundível cheiro do fogão a lenha. Já aceso. "hmm, cheiro de café"
Café, broa de milho, mentira, cuscuz, bolo de aipim, mamão, banana, jambo, suco de laranja, queijo, requeijão, tudo já em cima da mesa. E uma linda caboquinha preparando a mesa "sou fulana sobrinha dos fulano" "bom dia fulana" "bom dia moço".
Come pouco, até meio triste por ter de escolher em tanta fartura. Guarda umas bananas na mochila, enche o cantil e vai fazer a trilha. A subida é um tanto íngreme, um morro meio barranco por cima do terreiro da pousada. Mas a estrada velha está ali, perceptível. Cresce bastante mato mas o caminho é nítido. Caian começa a caminhar.
E no caminho, em silêncio vai ouvindo: sabiás cantando, sanhaços e vários outros passarinhos cujo nome não sabe, e cujo canto não associa a imagem alguma. Ouve micos assobiarem. Gaviões cruzarem o céu, ora branco, ora azul. Nas bordas da estrada antiga árvores já grandes percorrem sua jornada em direção ao céu. Umas já estão bem adiantadas. Ás vezes barulho de água. Caian para, quer saber de onde vem. "cachoeira será? tá frio ainda, andar mais um pouco"
E numa das curvas da estrada, se é que ainda podíamos chamar aquela trilha cada vez mais fechada de estrada, a floresta se apresenta. Volumosa, sobre a estrada, subindo morro acima, como se projetasse uma sombra verde por cima do caminho e dos olhos de caian. Árvores enormes, palmeiras, muito verde. E discretamente, mas sem passar pelos olhos argutos do observador, duas filas de árvores, paralelas, destoam do resto da paisagem. Em meio à mata atlântica, vários pinheiros enfileirados, apontando feito lanças para o céu. Seguindo a curva do morro, sem descer como a estrada velha faz. "caminho pra algum lugar" foi o que pensou caian.
E foi pelos pés dos pinheiros, até encontrar uma clareira no mato quase alto. As fundações da casa. O sol saindo entre nuvens pra pintar de amarelo o chão da clareira. Enquanto assistia meio embasbacado a dança dos raios solares varando o verde orvalhado da mata crescida, os olhos de caian se fixam num ponto na ruína. Brilhou dourado. "eu hein"
Foi na direção do brilho. Acocorou-se sobre a fundação da casa, esticou o braço e apanhou o objeto. Não acreditou. Pesado, maltratado pelo tempo, mas meio lavado pela chuva que caíra nos dias anteriores, um moedão de ouro! Pesado, com uma cruz e quatro "M"´s em cada canto, impressos em um dos lados. "puta que pariu, um dobrão de ouro!" "mas peraí... dobrões de ouro são anteriores à vinda dos imigrantes..."
domingo, 2 de outubro de 2011
a jaqueira
A jaqueira lá da casa do meu avô, em Baia Nova interior de Guarapari - ES, é especial pra mim. Desde novinho, pra mim era lá o limite. Pra cima só mato fechado, a "capuéra", como meu avô italianão, Seu Davi, falava.
"Vou lá na capuéra pegar lenha" "Toma cuidado vô, que lá tem cobra e escorpião"
Era o que minha vó me mandava falar, e todo mundo ria do neto, sobrinho, filho...
Até chegar lá na jaqueira, no platôzinho sobre o terreiro da casa deles, eram várias mangueiras frondosas, um pé de caju bem velho (que quase nunca dava caju), cana e aipim espalhados, de vez em quando. E restos de estruturas de cimento, construídas e abandonadas há muito tempo, de uma vez que (ainda não era nascido, diz meu pai) meu avô criou bichos lá em cima. Uns três eucaliptos bem grandes, e árvores baixas, o mato...
Depois da cerca, à direita, pasto. Do meu tio, subia alto, dava a volta na montanha e encontrava com o pasto de lá de cima, da propriedade que avizinhava meu avô pelo outro lado.
E lá em cima, no cantinho úmido, antes da pedra descer a montanha, pra fazer o muro de trás da terra do meu avô, a jaqueira. grande, imensa, frondosa. jaca dura, boa, gostosa. foi o primeiro lugar ao qual pude ir sozinho. contemplar. novinho ainda, antes dos dez anos. sentado em cima de uma das várias pedras por baixo dela, ou em cima mesmo, a partir de quando já tinha tamanho suficiente para alcançá-la sozinho.
O som era maravilhoso: no meio daquelas mil tonalidades de verde, no bosque das fruteiras, ouvir o vento falar lá do alto da copa das árvores... Nos meses de verão, ouvir a água por entre as pedras, sobrando da nascente, descendo o morro pra encontrar o rio.
Dali criei o gosto de bicho. Ver as trilhas marcadas no mato fechado, pequenos túneis levando pra dentro daquele verde que eu achava intransponível, do alto da minha infância. Passarinho, aprendi a gostar com minha vó, que sempre falava do gaturamo dela, que vinha todo dia comer a banana que ela botava no terreiro. Do beija flor do rabo branco, que vinha beber no bebedouro dentro de casa...
E na jaqueira eu vi tucano, vi saíra, vi gavião... Vi sabiá, vi sanhaço, vi nambu... canarinho nem conta.
Sempre que volto lá, tiro um tempinho pra passar com a jaqueira. Ela deve sentir falta do meu avô, já faz bastante tempo que ninguém mora lá. Mudou a terra em volta, as mangueiras foram embora, o bosque pra baixo dela diminuiu, plantou-se palmito. Mas pra cima a capoeira cresceu, a água corre por baixo da jaqueira agora muito mais meses no ano...
Tem tempo que não vou lá. Mas a última vez foi auspiciosa.
Da varanda da casa, vi movimentos no morro acima. Pouco tempo depois, os sons inconfundíveis. Roncos guturais, rosnados de trovão. Os bugios. Sem gritar, mas fazendo algazarra, desceram até os eucaliptos, que sobraram do palmital. Fui atrás. E os vi de perto. Em cima dos eucaliptos, me levaram pra jaqueira. E fiquei lá, assobiando pra eles, rindo pras suas caras assustadas...
Foi um dia bom.
"Vou lá na capuéra pegar lenha" "Toma cuidado vô, que lá tem cobra e escorpião"
Era o que minha vó me mandava falar, e todo mundo ria do neto, sobrinho, filho...
Até chegar lá na jaqueira, no platôzinho sobre o terreiro da casa deles, eram várias mangueiras frondosas, um pé de caju bem velho (que quase nunca dava caju), cana e aipim espalhados, de vez em quando. E restos de estruturas de cimento, construídas e abandonadas há muito tempo, de uma vez que (ainda não era nascido, diz meu pai) meu avô criou bichos lá em cima. Uns três eucaliptos bem grandes, e árvores baixas, o mato...
Depois da cerca, à direita, pasto. Do meu tio, subia alto, dava a volta na montanha e encontrava com o pasto de lá de cima, da propriedade que avizinhava meu avô pelo outro lado.
E lá em cima, no cantinho úmido, antes da pedra descer a montanha, pra fazer o muro de trás da terra do meu avô, a jaqueira. grande, imensa, frondosa. jaca dura, boa, gostosa. foi o primeiro lugar ao qual pude ir sozinho. contemplar. novinho ainda, antes dos dez anos. sentado em cima de uma das várias pedras por baixo dela, ou em cima mesmo, a partir de quando já tinha tamanho suficiente para alcançá-la sozinho.
O som era maravilhoso: no meio daquelas mil tonalidades de verde, no bosque das fruteiras, ouvir o vento falar lá do alto da copa das árvores... Nos meses de verão, ouvir a água por entre as pedras, sobrando da nascente, descendo o morro pra encontrar o rio.
Dali criei o gosto de bicho. Ver as trilhas marcadas no mato fechado, pequenos túneis levando pra dentro daquele verde que eu achava intransponível, do alto da minha infância. Passarinho, aprendi a gostar com minha vó, que sempre falava do gaturamo dela, que vinha todo dia comer a banana que ela botava no terreiro. Do beija flor do rabo branco, que vinha beber no bebedouro dentro de casa...
E na jaqueira eu vi tucano, vi saíra, vi gavião... Vi sabiá, vi sanhaço, vi nambu... canarinho nem conta.
Sempre que volto lá, tiro um tempinho pra passar com a jaqueira. Ela deve sentir falta do meu avô, já faz bastante tempo que ninguém mora lá. Mudou a terra em volta, as mangueiras foram embora, o bosque pra baixo dela diminuiu, plantou-se palmito. Mas pra cima a capoeira cresceu, a água corre por baixo da jaqueira agora muito mais meses no ano...
Tem tempo que não vou lá. Mas a última vez foi auspiciosa.
Da varanda da casa, vi movimentos no morro acima. Pouco tempo depois, os sons inconfundíveis. Roncos guturais, rosnados de trovão. Os bugios. Sem gritar, mas fazendo algazarra, desceram até os eucaliptos, que sobraram do palmital. Fui atrás. E os vi de perto. Em cima dos eucaliptos, me levaram pra jaqueira. E fiquei lá, assobiando pra eles, rindo pras suas caras assustadas...
Foi um dia bom.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
O verão (ainda vai demorar, mas) vai chegar!
chuva que vem do norte pra cair em vitórinha:
sabe me dizer qual é a lua no céu?
é a chuva que vem do norte
na primeira lua nova
da primavera
só pra lembrar que o inverno não acabou
só pra lembrar que o verão não nasceu
e o calor, o azul no céu
e o desabrochar da flor
ainda vão demorar
por enquanto o cinza é regra
e as mudanças no mundo
ainda vão demorar
mas tão certo como o sol se levanta
dia após dia e contra isso nada adianta:
o verão vai chegar!
e até que chegue esse dia
as flores vão desabrochar
e a roupa das meninas
vai colorir e encurtar
e os passarinhos cantando vão fazer
o que eles tem pra fazer
avisar pra nós, desavisados
que o verão vai chegar!
sabe me dizer qual é a lua no céu?
é a chuva que vem do norte
na primeira lua nova
da primavera
só pra lembrar que o inverno não acabou
só pra lembrar que o verão não nasceu
e o calor, o azul no céu
e o desabrochar da flor
ainda vão demorar
por enquanto o cinza é regra
e as mudanças no mundo
ainda vão demorar
mas tão certo como o sol se levanta
dia após dia e contra isso nada adianta:
o verão vai chegar!
e até que chegue esse dia
as flores vão desabrochar
e a roupa das meninas
vai colorir e encurtar
e os passarinhos cantando vão fazer
o que eles tem pra fazer
avisar pra nós, desavisados
que o verão vai chegar!
Assinar:
Postagens (Atom)

